- Voltei pra sala bem antes do fim do recreio. Sentei mais lá pro fundo, para que não atrapalhasse a aula novamente, talvez, todos estranhassem aquilo, logo eu, que geralmente era a que mais brigava com todos para que parassem de falar… Mas por fim, cobri minha cabeça com a mochila e uma onda de sono me tomou.
- Acordei junto com o sinal do fim do recreio, a sala já começou a encher e Alice já vinha em minha direção para chegar em seu lugar, com a cara de nojo de sempre. E logo eu percebi que Bernardo não tinha aparecido ainda, então tive certeza da briga entre os dois. Me peguei rindo de novo. Foquei na aula, que estava muito chata, quase não aguentei até o fim dela. Algumas aulas depois estava na hora de ir pra casa, peguei minha coisas bem rápido e fui andando com um dos lados do fone pendurado no meu ombro, e o outro no meu ouvido, ouvindo Nirvana, uma das bandas preferidas de Bernardo.
- Estava com a cabeça à mil, quando o vi sentado na praça. Ele tinha matado aula, justamente a que ele era péssimo na matéria, novidade, mas parecia triste.
- Eu quis muito ir lá dar um oi, mas o que ele pensaria depois? Imagina só que porre seria para ele, ficar me ouvindo falar sobre o conteúdo da aula. Aliás, a aula que nem eu prestei atenção. Parei e fiquei observando ele uns minutos, estava ouvindo música e lendo alguma coisa, um livro talvez… Fiquei ali admirando ele, feito uma idiota paralisada, quando o meu celular tocou. O toque era ”Come as you are” do Nirvana, e estava às alturas. Ele ouviu, me olhou. Logo desviei e atendi.
- Era minha mãe, avisando que chegaria mais tarde em casa, outra novidade. Logo me animei, não tinha hora exata para ir embora. Podia dar voltas e mais voltas na rua sem me preocupar com o sermão ridículo da minha mãe.
- Fui em direção ao centro, precisava de umas roupas novas… Parei na loja mais badalada da cidade, aquela que nem a Amanda conseguia frequentar. Gastei minha mesada, que eu juntei por uns 5 meses para comprar uns livros para ler… Mas me senti bem enquanto experimentava todas aquelas roupas. Me dei ao luxo de comprar algumas maquiagens, coisa que raramente uso, por isso não tenho em casa. E descobri uma paixão por sapatos, altos, mas todos lindos. O problema era, como eu iria andar com isso? Os únicos sapatos altos que eu já usei foram anabella, aqueles que crianças de 10 anos usam.
- Acabei com as compras e fui correndo para casa, antes que minha mãe chegasse, porque se me visse com tantas sacolas já vinha aquele sermão de meia hora, coisa que eu jamais escutaria.
- Fui em direção ao meu quarto, experimentei novamente todas as roupas, maquiagens e sapatos. E por alguns minutos, me senti como a Amanda, a pessoa que mais detesto no mundo. Logo eu; cabelo solto, maquiagem e salto alto, me vi no lugar dela… Eu estava totalmente mudada, completamente fora de mim. Já tinha tudo, estava pronta para ser a nova eu, mas… ainda, sem o Bê.
- Meu irmão me espiava pela fresta da porta. Parecia rir, não dei atenção e continuei a me sentir uma daquelas amigas vadias da Amanda. O que me pareceu ser bom. Talvez não seja tão má ideia me aproximar de todas elas com esse meu jeito novo. Sei que que uma hora elas me vão me aceitar. Mas claro que não vamos nos tornar amigas, é só por uns tempos. Até que o Bernardo note.
- Desci até a cozinha, com um short curtíssimo e rasgado, uma blusa com um decote V, liguei a música às alturas, era Nirvana de novo, precisava me por num ritmo tenso e perturbante até pensar em algo definitivo contra a Amanda, e precisava ser amanhã.
- Ouvi a campainha tocar, pensei em correr e me esconder, poderia ser minha mãe… Mas também, poderia ser o Bê. Ok, impossível, mas eu ainda tinha esperanças. Fui até a porta e abri, era minha mãe dizendo que havia esquecido a chave de baixo de sua cabeceira da cama.
- Parece surpresa, mas pela primeira vez vi minha mãe me olhar com cara de desprezo. Logo gelei, não sabia como explicar, não sabia como manter um clima normal ali. Mesmo que eu tenha mudado, ela era minha mãe, com ela, eu pretendia ser a mesma pessoa.
- Alice, que roupa é essa? - Disse ela, com uma cara espantada.
- Mãe, e.. eu posso explicar, eu juro. É que e…- Ela me interrompeu.
- Sem explicações, Alice, vá tirar essa roupa agora. Quem é você? Uma vadia? Olha esse decote menina, olha esse short. Você tá ficando maluca? Vá agora tirar isso.
- Pela primeira vez, bati de frente com ela. Me aproximei, olhei para ela e disse com um tom de voz ao extremo.
- Você não manda mais em mim, eu tenho 15 anos e decido o que eu bem entender da minha vida. Se eu quiser usar algo menor que isso, eu uso. -
- Ela paralisou, não podia ser, a garotinha da mamãe a tratando assim.
- O que aconteceu com você? Aonde arranjou esse tanto de roupas, Alice? Minha filha, não fala assim comigo, olha no que você tá se tornando, eu ainda sou sua mãe. Eu pago suas contas.
- A voz dela já estava me irritando, e eu me via revirando os olhos.
- Paga? É mesmo? Com a sua mixaria de emprego? Eu tô cansada de me zoarem no colégio pô, eu só tenho roupas de brechó e olhe lá. Juntei meus trapos e comprei, e quer saber como eu consegui?
- Ela pensou logo no pior, me olhou com desespero e rapidamente segurou um dos meus braços.
- Você está de castigo, Alice. Sem festa. Sem tv. Sem computador. SEM NADA. Você vai de casa para escola, e da escola para casa. E outra, eu que irei te levar e buscar.